sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A menina e seu cavalo (Parte 3)

Quando Limão saiu da clínica e voltou para a fazenda, Bia estava lá, esperando. O que Limão não sabia era que Bia tinha passado todo esse tempo implorando ao seu tio que lhe desse o cavalo. Não estava sendo fácil, o Sr. L. gostava muito de Limão, principalmente depois de ele salvar seu filho, mas o Sr. L. era muito bondoso e gostava demais de sua sobrinha e acabou concordando em dar-lhe o cavalo, recusando a oferta que seu irmão havia feito em dinheiro. Afinal, uma coisa era atender a um pedido de sua sobrinha querida e outra era vender o cavalo que salvara a vida de seu filho. Assim, Limão estava em uma situação tão boa quanto difícil, pois ficaria mais perto de sua amada, por vontade dela, mas isso não significava que ela o amasse como ele esperava. Na verdade, nem o próprio Limão sabia como ele esperava que ela o amasse e nessa confusão de sentimentos foi morar na casa de Bia.
Quanto a Lídio, voltou para casa de seu pai curado e não se lembrava de absolutamente nada do dia do acidente, muito menos do fato de Limão ter começado a pular sem nenhum motivo aparente.

A fazenda onde Limão passara a viver era o lugar onde, geralmente, a família de Bia passava os fins de semana, mas agora Bia praticamente morava lá. Ficava com Limão o tempo todo, o que o deixava muito feliz, e juntos andavam por toda a propriedade da família. Bia desenvolvera por Limão aquela afeição que normalmente sentimos por nossos bichinhos de pelúcia. Limão passou a ser seu melhor amigo, conversava com ele, passeava com ele, ria com ele, comia com ele (não a mesma comida, claro!) e sempre cantava pra ele. Limão estava satisfeito com essa relação, mas sentia uma pequena inquietação sabendo que isso não iria durar muito.
Algum tempo depois, Bia arrumou um namorado e namorou por um bom tempo esse ser e depois se casaram e foram morar na fazenda em que Limão estava. Bia não aceitou viver em um lugar em que seu cavalo não pudesse ir. A amizade entre eles não se modificara, só o tempo que passavam juntos que diminuíra um pouco, agora que ela tinha um marido. Logo vieram os filhos e Bia se afastava cada vez mais de Limão, que além de velho estava ficando doente devido à distância de sua amiga e grande amada.
Limão percebeu que seu amor por Bia tinha sido, na verdade, a melhor coisa que lhe acontecera. Tal sentimento, apesar de todo o sofrimento que o acompanha, faz com que as pessoas se sintam melhores com o universo e com os outros seres. E o sofrimento de que falei, faz com que cresçamos e sejamos melhores. Mas tinha uma coisa que incomodava Limão demais: ele queria que Bia ao menos soubesse de todo o seu sentimento. Era uma necessidade que Limão não entendia, mas talvez o fato de não poder ser correspondido fizesse com que ele quisesse pelo menos ser reconhecido. Mas ele não tinha nenhuma idéia de como isso pudesse ser possível.
Um dia, muito tempo depois, quando os filhos de Bia já corriam pela fazenda e ela raramente visitava Limão, que não conseguia mais correr e só ficava em sua casinha, apareceu uma linda mulher e se encaminhou diretamente para Limão:
– Oi! Como vai?
Limão, que já estava acostumado que as pessoas falassem com ele, respondeu em seu linguajar de cavalo, que para as pessoas pareciam um relincho:
– Bem...
E a mulher disse:
– Não parece!
Limão pulou.
– Você consegue me ouvir? – Ele perguntou.
– Sim. Por que não poderia?
– Você é humana, humanos não falam com cavalos, quer dizer, falam, mas não ouvem, você sabe eles, eles... – Limão nem sabia mais o que falar.
– Calma, Limão, eu tenho aparência de humana, mas não sou. – Disse a mulher. – Eu sou um espírito da floresta, que conforta os animais na hora de sua morte.
– Quer dizer que vou morrer?
– Não imediatamente. Você pode me fazer um último pedido. Qualquer um, inclusive viver mais. Você escolhe...
Limão pensou que a resposta era fácil: viver mais ao lado de Bia era só o que ele queria. Mas então pensou o quanto estavam afastados, embora soubesse que Bia ainda o amava, e percebeu que isso não adiantaria muito. Então se lembrou do grande desejo de seu coração: que Bia pudesse saber o quanto ele a amava e decidiu que pedido fazer.
– Quero ser humano por um dia antes de morrer.
A mulher olhou-o nos olhos por alguns instantes e disse:
– Tudo bem! Você terá 24 horas de humanidade, após esse prazo, voltará a ser cavalo e morrerá. De acordo?
– De acordo!
A mulher foi se afastando lentamente e Limão começou a sentir um formigamento estranho pelo corpo, sua vista ficou embaçada e depois de um estremecimento viu que tinha duas pernas e dois braços e uma cabeça humana. Era humano!
Limão não sabia o que fazer, não sabia se corria para a casa e contava para Bia ou se se mostrava para seus amigos cavalos. Mas quem iria acreditar? Talvez seus amigos, mas não Bia. Ela jamais acreditaria que seu cavalo se transformaria em um homem pra dizer que a amava. E também, ela era uma mulher casada, ele não podia simplesmente chegar em sua casa e dizer: – Ei, amo você! Tudo era tão complicado, mesmo agora. E então Limão percebeu o que tinha que fazer. Aproximou-se da casa pelos fundos, chamou um dos criados e perguntou se podia lhe emprestar algumas folhas de papel e uma caneta. A mulher havia feito um bom trabalho, Limão se transformara em um homem com aparência decente e, como ele suspeitou e confirmou depois, com certo grau de instrução, e por isso a criada não se importou em atender tão gentil cavalheiro.
Limão se encaminhou a sua casinha, sentou-se, e começou a escrever a história de Bia e Limão.

Agora que vocês já sabem, peço perdão pelo mau jeito com a escrita, não é fácil para um cavalo contar uma história e meu tempo está terminando. Só queria dizer ainda que se você um dia ler isso Bia, saiba que não me arrependo de nada. Você foi a coisa mais linda que me aconteceu e eu fui o cavalo mais feliz que poderia ter existido, não sei se vai acreditar, mas pense... ninguém poderia saber de tudo isso. Te amo!

A menina e seu cavalo (Parte 2)

Mas eu não sou muito bom para contar histórias. É necessário um detalhamento maior de como se deu o primeiro encontro entre Bia e Limão. Como já disse, Bia havia reencontrado seu primo Lídio depois de muito tempo de separação. Quando tinha nove anos, Lídio foi mandado para uma cidade maior para poder estudar e Bia ficou em sua cidadezinha. Quando voltou, já com 18 anos, as coisas na fazenda haviam mudado um pouco. O pai de Lídio havia comprado vários cavalos e também adotado alguns que tinham sido abandonados na prefeitura. Limão era um desses, e chegou à fazenda quatro anos antes de Lídio voltar. Bia não visitava muito a fazenda desde a partida de seu primo, afinal, sua diversão na fazenda era brincar com ele. Ela foi à fazenda apenas duas vezes nesses nove anos de ausência de Lídio.
A fazenda era um lugar muito lindo e seus moradores o chamavam de Casa Nostra. No centro do terreno havia a casa, linda, toda branquinha com janelas e portas marrons. Uma varanda circulava a casa toda e apenas se interrompia para dar lugar à entrada principal da casa: uma linda porta dupla de madeira escura, polida e entalhada. Uma pequena escada de cinco degraus levava até a grande porta e aos pés dessa escada estava o gramado mais verde jamais visto, que circundava toda a casa. Havia algumas cadeiras de repouso espalhadas pela grama. Era onde a família descansava durante as tardes. Logo depois do gramado havia muitas árvores enfileiradas, que formavam um círculo em torno do terreno da casa. Fora desse círculo começava o que o Sr. L chamava de Terras Ermas, ou seja, o grande pasto da propriedade. Quando o Sr. L decidiu criar cavalos, o espaço imediatamente após o círculo de árvores foi transformado em um curral. A Bela Árvore ficava a uns 800 metros depois do curral.
O caminho que dava acesso à fazenda ficava do lado oposto da entrada principal e do curral e por isso o Sr. L. construiu uma grande garagem no fundo de sua casa, do lado de fora do anel arborizado, fazendo, assim, com que nenhum carro entrasse no seu mar verde. Os cavalos tinham permissão para pastar à vontade pela propriedade e eram obrigados a ir para o curral somente para dormir ou quando estavam doentes, mas eram tão bem tratados pelo Sr. L. e seus empregados, que não havia nenhuma necessidade de levar os animais para o curral quando a noite caía. Eles sabiam exatamente o que fazer.
No dia da chegada de Lídio, o Sr. L. preparou uma grande festa e por isso havia muita gente chegando, todos sob o olhar vigilante de Limão, que parava próximo à garagem e ficava assistindo o desfile de convidados. Limão adorava festas! Como tinha gente e movimentação e alegria! Isso era muito legal, os cavalos não tinham festas assim. Quando Bia chegou, Limão soltou um grito de surpresa cavalal e perguntou à velha égua Mili:
– O que é aquilo? Um daqueles seres das histórias? Um anjo ou uma fada? O que é Mili?
– Bobo! – Disse Mili – Ela é uma humana como qualquer outra.
– Não, não é não. Ela é linda! Parece um sonho...
– Mas não é! É gente, só gente, o que já é demais pra você que é um cavalo.
Neste momento Limão percebeu o quanto estava encrencado. Ela era só gente, mas ele era só cavalo. Impossível! Mas o coração dos bichos sente como qualquer outro e não há nada a fazer quanto a isso. Limão estava apaixonado.
No ano que se seguiu, Limão sofreu muito e mudou drasticamente. Do cavalo alegre e brincalhão que todos conheciam ficou só a lembrança. Limão não comia direito, não dormia direito e só ficava pelos cantos suspirando e pensando na sua Bi. Sua presença na fazenda agora era constante, o que fazia Limão sofrer ainda mais, então, ele decidiu parar de querer se encontrar com ela e se afastar toda vez que ela chegava, mas justamente quando encontrou forças para fazer isso e se afastou até muito depois do curral, Bia o seguiu junto com seu primo Lídio. Era o destino!
Deixe-me ver... o que aconteceu imediatamente depois vocês já sabem e logo após a saída de Lídio, Bia e Limão ficaram juntos por um bom tempo, Bia chorando e Limão sofrendo mais do que imaginava possível.
Depois desse incidente, Bia não voltou mais à fazenda, fazendo com que Limão desejasse a morte a cada dia. Não sabendo mais o que fazer pra aliviar sua dor, Limão viu uma oportunidade no dia em que Lídio quis montá-lo. Devo dizer aqui que de maneira alguma aprovo o que Limão fez a seguir, mas devemos considerar o fato de ele estar muito apaixonado, muito doente e muito magoado, não pensando muito nas conseqüências de seus atos.
Quando Lídio e Limão já estavam bem longe da casa, Limão começou a pular e a escoicear tentando derrubar Lídio. Como aquele moleque ousou rejeitar Bia... mas quando Lídio caiu, Limão se sentiu muito mal, afinal não era um cavalo ruim, só estava nervoso. Limão correu para a casa e tentou de todas as maneiras avisar o Sr. L. do acontecido, agora ele já estava muito arrependido e queria ajudar. O Sr L. entendeu logo a mensagem e foi com Limão até o lugar do acidente. Lídio estava inconsciente e havia uma poça de sangue ao redor de sua cabeça. O Sr. L. pegou o seu filho e levou-o de volta para casa montado em Limão. Quando chegaram, os humanos logo entraram e deixaram Limão parado na entrada principal da casa, assim ele acompanhou toda a movimentação de ambulâncias e médicos e carros e parentes. Ele não podia acreditar que tinha feito isso, queria sumir, morrer, menos ter que olhar para o rosto do Sr. L. e ver todo o sofrimento que havia causado, justo a pessoa que mais o ajudou em toda a sua vida. Mas a pior parte foi quando o Sr. L. se aproximou de Limão e disse:
– Meu bom cavalo, não precisa se preocupar, ele vai ficar bom. E você foi incrível vindo buscar ajuda, se não fosse por você meu Lídio provavelmente morreria. Muito obrigado!
Neste momento Limão não agüentou, começou a relinchar todo o seu desespero e caiu doente.
Quando Limão recuperou a consciência, se achou em um lugar completamente estranho, que descobriu mais tarde ser uma clínica veterinária. E que surpresa! Bia estava ao seu lado! Quando viu que ele havia acordado, ela disse:
– Eu conheço você! Você é o cavalo que me fez companhia no dia em que eu conversei com Lídio. Você é o cavalo mais fofo que eu já vi, consola as pessoas, salva a vida dos donos, queria que você fosse meu... meu cavalo da guarda...
Limão sarou naquele momento, mas seu coração quase explodiu de emoção, o que fez o veterinário querer que ele passasse mais alguns dias na clínica.

A menina e seu cavalo

Em uma cidadezinha muito pequena vivia uma menina, e que terrível era essa menina! Quando tinha cinco anos achava que já sabia tudo, mas nunca se cansava de aprender. Nessa mesma cidade vivia um cavalo, na verdade viviam muitos cavalos, mas havia um que seria especial, embora eu pense que todos os cavalos sejam importantes, assim como qualquer outro animal, principalmente os cachorros e os ursos e talvez um pouco menos os mandruvás. A questão é que na mesma cidade viviam uma menina e um cavalo que terão especial importância para essa história. A menina se chamava Bia e o cavalo... Limão.
Quando essa história se inicia, Bia tem 16 anos e acaba de reencontrar seu primo Lídio na fazenda de seu tio. Nessa época era proibido se apaixonar por primos, acho que ainda é, mas, naquele momento, Bia estava acabando de entrar numa fria e, nesse exato momento, mais alguém estava se complicando, e muito mais: Limão, pois ele estava completamente apaixonado por Bia.
Você deve estar se perguntando como um cavalo pôde se apaixonar por uma humana, mas Limão não era um cavalo comum, ele gostava de sonhar e nunca gostou das coisas limitadoras da vida. Por que a vida de um cavalo tem que se limitar às atividades cavalais? Por que um cavalo não pode querer mais do mundo do que um simples monte de feno? Limão não queria deixar de ser cavalo, nunca quis, a única coisa que ele queria era poder viver do jeito dele, assim como ele nunca quis se apaixonar por uma humana, ele não era tão louco assim, mas aconteceu e agora ele estava completamente perdido.
Como eu havia dito, Bia se apaixonou por Lídio e como todo primeiro amor, ela pensou que nunca iria esquecê-lo e que seria o fim da sua vida se ele também não a amasse. E ele não amava. Não como ela esperava. Bia era a prima preferida de Lídio e ele ficou muito triste quando percebeu que teria de magoar sua primiga, pois era assim que se tratavam: como primos e amigos.
A agonia de Bia durou um ano inteiro. Ela passou a freqüentar a fazenda muito mais do que costumava e Lídio, por sua vez, tentava não entender o que isso significava. Um dia, quando os dois passeavam pelo gramado próximo à Bela Árvore, uma grande e frutífera mangueira que fizera parte da infância e da história dos dois, Lídio resolveu esclarecer a situação incômoda em que se encontravam e disse:
– Primiga, tentei fingir que não estava entendendo tudo o que vem acontecendo, mas você sabe muito bem que eu sei e também sabe o que eu acho.
– Não vou fingir que não sei – disse ela. Só não tinha coragem de falar abertamente e perder a gotinha de esperança que todos têm no coração mesmo quando sabem que tudo está perdido.
– Sei, mas, infelizmente, nesse caso não há nenhuma esperança. Sinto muito! E Lídio se afastou lentamente.
– Espera! Se vou ter que conviver com sua recusa, pelo menos vou ser recusada depois de falar – disse ela já chorando. Eu te amo mais, mais... não sei mais que o que, só sei que te amo muito e que desde que te vi de novo, depois de tanto tempo, tive certeza de que você era o homem da minha vida. A única coisa que fiz esse último ano foi pensar em você e em como te diria isso.
Silêncio!
– Mas você já deixou claro que não me ama há muito tempo – completou Bia.
– Mas eu te amo, Bia! Você é a prima que eu mais gosto, mas é só. Primigos, lembra?
– Não sou mais sua primiga Lídio, que coisa idiota! Pára com essa besteira de infância, a gente cresceu!
– Pois não está parecendo e idiota é essa sua atitude!
Bia estava muito nervosa e chorava muito; Lídio também saiu apressado e batendo os pés, depois de alguns passos ele parou, respirou fundo e se voltou para Bia para dizer:
– Um dia, muito brevemente acredito, você vai esquecer essa bobagem, se apaixonar por outra pessoa e a gente vai voltar a ser primigos. Até lá!
Lídio se afastou e deixou Bia chorando até não poder mais, encostada na mangueira, mas ela não estava sozinha.
Limão havia assistido toda a cena e estava duplamente triste. Primeiro por saber que sua Bi (era como a chamava) era apaixonada por outro, não que ele esperasse que ela se apaixonasse por ele, até parece! Mas também não por Lídio; segundo por vê-la tão triste e desconsolada, o que fez com que, a partir desse momento, Limão tivesse raiva de Lídio, por não merecer e desprezar amor tão valioso. Involuntariamente Limão soltou um grande suspiro, suspiro de cavalo, e Bia, que até então não havia notado a presença do cavalo, olhou para os seus grandes olhos marrons e tristes, como costumam ser os olhos de um cavalo. Mas nesse momento os olhos de Limão eram muito mais tristes do que os olhos de qualquer outro cavalo do mundo e isso chamou a atenção de Bia, que pensou “Há mais amor nos olhos desse cavalo do que no meu coração e imagino que mais do que no coração de qualquer outra pessoa”. Ela estava mais certa do que imaginava.

Um passeio entre pedras e borboletas

A lua estava baixa no céu e a noite sussurrava maravilhas.
Quando Billy, o unicórnio, saiu da caverna, encontrou pequenas pegadas na porta. Nunca havia visto nada igual, deveria ser algum ser pesado, mas nunca vira um centauro com cinco dedos ou com duas patas. O fauno também não podia ser... as fadas não deixavam pegadas... Seria um novo ser? Seria o Ser Especial? O pequeno unicórnio voltou correndo para dentro e disse à sua mãe:
– Mãe, vi pegadas diferentes, acho que é do Ser Especial...
– Ah meu filho! Você não acha que já está grandinho demais para acreditar nessas coisas? Isso que dá ficar ouvindo aquelas loucuras de fadas. Você deveria ficar mais com os centauros, é melhor ficar com quem não se deixa iludir.
Billy não ligou para sua mãe. Iria buscar o Ser Especial.
Saiu através dos bosques, seguindo as pegadas até chegar à grande Rocha das Fadas. Ali, perguntou à fada Lily se ela havia visto alguma coisa diferente e ela lhe disse:
– Ah sim! Um Ser Especial esteve aqui, mas já se foi.
– Foi por onde Lily? Eu quero ver, eu quero ver!
– Não adianta Billy, você não pode vê-lo!
– Mas por que não? Vocês podem, não podem?
– As fadas desenvolveram a habilidade de se comunicar com os Seres Especiais há milênios e mesmo assim raramente conseguimos manter contato.
– Mas você viu ele, não viu?
– Vi, mas ele não me viu. Na verdade ele viu apenas pequenas borboletas... achou lindo, mas é só... Só podemos conversar com quem nos vê... por isso é tão difícil.
– Mas ele existe mesmo? É difícil acreditar em algo que não se pode ver... todos zombam de mim...
– A maior virtude, Billy, é continuar acreditando quando não se vê. Acreditar em algo visível é fácil. Acreditar no invisível é o primeiro passo do longo caminho da comunicação com os Seres Especiais e o fato de você poder ver suas pegadas já é um bom sinal. Sua mãe, por exemplo, jamais veria.
O unicórnio Billy ficou muito desanimado, ver as pegadas era legal, mas preferia ver o próprio Ser. E foi andando até o Lago dos Anões...

A menina estava perdida, mais uma vez saíra em busca do Belo Reino e mais uma vez não encontrara, tentava voltar para casa, mas não conseguia encontrar o caminho. A menina levava seu urso no colo e ambos estavam muito sujos. Haveria castigo, com certeza.
De repente a menina encontrou um lago com muitas rochas... parecia que murmuravam entre si e a menina se encantou, mas, depois de um tempo, desanimou: eram apenas rochas!
A menina voltou a andar e encontrou seu velho amigo ou seu amigo, o Velho. Ele, como sempre, lhe deu um grande sorriso e disse:
– Encontrou?
– Não, mas encontrei uma rocha muito bonita, com muitas borboletas, achei que fosse lá... mas vi que não podia ser, eram só borboletas... e depois, também, encontrei um lago muito lindo, com muitas rochas e parecia que falavam! Mas era só a minha imaginação...
– Não se pode desanimar... continuar acreditando é o melhor que podemos fazer...
– Eu acredito e sei que um dia encontrarei.
– Eu tenho certeza disso!
– Até mais então.
– Até mais!

O unicórnio Billy conversava com Bablu, o anão:
– Mas você acredita que eles existem?
– Claro que sim!
– Mesmo sem nunca ter visto um?
– O que isso importa? Há coisas que nossos olhos não estão suficientemente preparados para ver, é isso!
Billy percebeu que o assunto estava encerrado e se foi, dizendo a si mesmo que nunca deixaria de acreditar.
Neste mesmo momento o Grande Sábio chegava à Rocha das Fadas.
– Olá Lily!
– Olá vovô!
– Viu a menina?
– Vi.
– O que você acha?
– Com certeza vovô, com certeza! E o Billy?
– Ele vai ter a sua oportunidade...
E o velho sorriu.

Corion

Corion era um lugar mágico, mas somente os seres mágicos sabiam disso. Não que Corion não quisesse ser reconhecido por todos os seres, mágicos ou não, o problema era que os seres em geral não queriam reconhecer Corion como um lugar mágico. Era só uma floresta.
Não sei bem como descrever Corion, não era um país, nem um ‘mundo’. Era um lugar. Um lugar lindo e que todos amavam, cada um por seus motivos.
Billy, o unicórnio, vivia no extremo leste de Corion, ao norte, e podia ver parte das terras que eram conhecidas como desoladas. Não havia nada lá, só terra. Mas ninguém se preocupava muito com aquela parte, nem olhava muito pra lá, era muito triste, parecia um grande fantasma marrom e esfumaçado. Billy tinha medo.
Mas como eu estava dizendo, Corion não era um país, era um lugar e um lugar diferente se pensarmos no uso corrente da palavra ‘lugar’. Quando o grande Tom Azul resolvera esconder seu povo, ele sabia que não conseguiria reunir todos em um só lugar, afinal havia quem preferisse a montanha ou a floresta ou a praia. Então, o grande Tom divulgou um comunicado avisando a todos os seres que permanecessem no lugar em que preferissem viver, pois ele lançaria um encantamento que faria desses lugares um refúgio para todos eles e esse refúgio seria Corion, um grande lugar espalhado por todo o grande mundo. Muito tempo depois, quando os homens fizeram divisões no grande mundo, separando-o em centenas de países, Corion continuou inalterada, sem nenhum tipo de divisão e a história que estou tentando contar se passa em uma parte da grande Corion, ou melhor, uma floresta da grande Corion.
Billy era provavelmente o ser mais curioso, falador e intrometido que existia em toda Corion, tudo era motivo de perguntas e a maioria dos habitantes não gostava muito de responder perguntas, então Billy procurava a fada Lily: “Por que as árvores crescem para cima? Por que o céu é azul se o brilho do sol é amarelo? Por que eu tenho quatro patas?”. Mas Lily era um poço de paciência e dava todas as respostas que ele queria: “As árvores crescem para cima porque o grande Tom Azul mandou que elas enxergassem o mais longe que pudessem e vissem tudo o que precisassem e o céu é azul para combinar com Tom, o sol não se importou em ceder essa grande tela que é o céu para a cor preferida de Tom e, em agradecimento a isso, Tom passou a usar botas amarelas para homenagear o sol e, e essa é a última que eu respondo hoje, você tem quatro patas para poder agüentar toda essa curiosidade dentro de você ou você realmente acha que somente duas pernas dariam conta?”. Esse era mais um dia normal em Corion. Mas havia uma pergunta que Billy fazia todos os dias, mas essa Lily nunca respondia: “Onde estavam os Seres Especiais e por que eles haviam se afastado de Corion?”.
Lily não respondia essa pergunta porque também não sabia a resposta, pois houve uma época em que Corion vivia em harmonia com o mundo ‘real’. Na verdade, naquela época não existia diferença, Corion era parte do grande mundo, nem mais nem menos real. Nessa época fadas e homens, elfos e anões viviam em paz e todos juntos, mas em algum momento e por algum motivo alguém fez com que os homens passassem a pensar que eram especiais, ou melhor, mais especiais que os outros seres, afinal todos são especiais de uma maneira ou de outra. Então os homens se tornaram arrogantes e quiseram se afastar de cada ser que não pertencia a sua própria espécie e fizeram com que seus filhos não acreditassem mais em nada que não fosse visualmente comprovado e como os outros seres preferiram se afastar, não eram mais vistos e conseqüentemente deixaram de existir para os homens.
Às vezes aparecia alguém que podia ver Corion, mas isso só era possível para quem havia acreditado, antes de qualquer coisa, e isso era muito raro. Corion, então, deixou de ser mais uma parte do grande mundo e passou a ser um refúgio dos seres invisíveis e o grande Tom Azul fez com que Corion e seus seres passassem a ser visíveis somente para aqueles que, além de acreditar, buscassem com muita vontade esse lugar mágico. Assim, os homens passaram a ser também invisíveis para a população de Corion, pois nenhum deles queria sair dali e nenhum homem aparecia há muito, muito tempo. Na época em que se encontravam agora não havia mais ninguém que acreditasse, talvez algumas crianças e alguns leitores, pois as histórias sobre Corion permaneciam nos livros, embora a maioria de seus leitores pensassem ser apenas histórias e a outra parte, mesmo acreditando, desistiam muito fácil de procurar. A última vez que um humano aparecera por ali e se tornara amigo dos habitantes de Corion fora há 80 anos.

Em busca do Belo Reino

Há muito tempo atrás contavam a história de uma garota, um velho e um urso. Nessa época muitos diziam que se tratava de uma lenda, apenas uma história... para garotos estúpidos e sonhadores. Porém, aqueles que a contavam ainda acreditavam nela e a narravam, ou melhor, a interpretavam com paixão. Essa história marcou minha vida, vou tentar contá-la como a ouvi, certo dia, da voz de um velho que cuidava atenciosamente de uma árvore.
Ele começou assim: – Sabe, hoje em dia não se acredita mais nas amizades, não como se fazia antes... Você conhece a história da menina, do velho e do urso? Pois, se você não estiver com muita pressa vou lhe contar.
O nome dela se perdeu, o que sabemos hoje é como o velho a chamava, princesinha... Ela era uma menina muito inteligente, sabe, talvez a mais inteligente das que já existiu e dizem que, por isso mesmo, ela não acreditava em átomos, em máquinas, computadores, disciplinas como história, matemática e ciências, essas coisas que, para muitos, explicam o funcionamento das coisas do mundo. Quando muito nova seu passatempo favorito era perguntar, para cada resposta surgiam mil novas perguntas. Com o tempo, a esse seu passatempo se acrescentaram outros, a leitura dos livros mais variados, mas, principalmente, de contos de fadas, que lia acompanhada de Iolau, seu ursinho, aliás, outra de suas diversões preferidas era brincar com ele, passavam o dia todo juntos.
Certo dia, como era de se esperar, ela começou a perguntar onde ficava o mundo que conheciam pelos livros, perguntou a seu urso, a sua avó, a todos que lhe davam brecha, mas ninguém sabia dizer. Até que, certa manhã, juntamente com Iolau, decidiu procurar por ele. Pensou que esse mundo poderia ficar escondido debaixo do nosso. Só havia um jeito de descobrir, procurando um buraco, uma entrada subterrânea, mas ela não sabia de nenhuma perto de onde morava. Ficou desolada. Chegando em casa trancou-se no quarto e começou a chorar, sabe-se lá por quê; de repente, notou que Iolau estava sobre seu antigo conjunto de construir castelos de areia. Teve um estalo, porque não cavar? De certo que não seria fácil, nenhum coelho ou tatu a ajudaria nessa tarefa, mas talvez fosse porque eles não compreendiam seu pedido. Ah, como sonhava com o mundo em que todos os seres falassem a mesma língua...
Após três semanas cavando e perguntando às minhoca se elas eram do mundo das fadas, faunos, e outros seres, muitos dos quais não conhecia e queria conhecer, ela pensou que talvez não devesse procurar embaixo, que era um lugar escuro, mas encima do mundo, que era iluminado e brilhante. Dessa sua primeira tentativa levou de recordação três pequenas pedras, muito bonitas, embora precisassem de um banho para recuperar todo o seu brilho; e muita sujeira na roupa, coisa que lhe valeu muitos castigos.
Sua segunda tentativa, como parecia sugerir seu urso, que repousava sob uma grande árvore ao seu lado, era subir no lugar mais alto que conhecia: um morro que ficava logo no fim de sua pequena cidade.
Foi assim que ela pegou a antiga trilha que subia o morro, mas chegando ao topo nada lhe parecia diferente do que conhecia, a única coisa que se destacou foi a presença de uma gigantesca árvore que nunca havia visto. Curiosamente nessa árvore existiam buracos que pareciam uma escada. Ela se empolgou, havia achado o caminho, era isso, a árvore era a porta de entrada para o mundo das fadas, era óbvio, nada mais coerente do que esse caminho, uma vez que os seres que habitavam esse mundo estavam tão ligados à natureza. Seus olhos cintilavam e se enchiam de lágrimas... Subiu a árvore com dificuldades, sempre acompanhada de Iolau. A escada tinha seu fim na copa da árvore, que era um lugar simplesmente maravilhoso de onde se podia ver toda a sua cidadezinha e era, certamente, o lugar mais extraordinário do mundo para se ver um pôr-do-sol. A menina passou horas e horas ali, admirando toda aquela beleza e brincando com seu urso. O tempo passou e, pouco a pouco, todo o seu deslumbramento foi se convertendo em tristeza. Sim, aquele lugar era o mais bonito em que já estivera, mas não era o lugar que queria encontrar. Escurecia e, embora não quisesse, tinha que ir para casa. Levou consigo, porém, aquele pôr-do-sol que tanto lhe impressionou.
O caminho agora parecia muito mais longo, desajeitado e perigoso, foram vários escorregões, tantos tombos que ela ficou tão suja quanto quando estava cavando seu caminho para o mundo das fadas. O certo é que escalá-lo não foi mais fácil do que cavá-lo. Quase no fim da trilha o cansaço de um dia agitado e frustrante pesava sobre suas costas. Foi nesse estado que encontrou um velho que embora nunca tivesse visto tinha a impressão de que conhecia. Ele andava devagar, carregava nas mãos instrumentos de jardinagem e parecia cantarolar. Em seu rosto via-se um sorriso amigo que aumentou ao ver a menina e seu urso. Ao se aproximar mais o velho balançou levemente a cabeça e fixou o olhar em Iolau. Nesse instante a menina teve a impressão de que ele piscou para o velho, mas se convenceu de que era só sua imaginação querendo compensar a frustração do dia.
– Que urso mais encantador você tem aí – disse o velho. Nada como um bom urso como companheiro. Ele parece gostar muito de você.
A menina abriu um sorriso de orelha a orelha, não era comum as pessoas se interessarem por seu urso, ainda mais do modo como esse velho o fez. Então ela disse:
– Ele também gostou do senhor.
– Que bom, imagino que esteja ficando tarde e você deve se apressar em voltar para casa. Até a vista.
– Tchau, senhor.
– Só um minuto, – disse o velho – quando eu era mais moço eu costumava ter um urso também, eu sempre o levava ao bosque que fica logo após esse morro. Acho que ele se divertia bastante, sempre penso que eles precisam estar perto da natureza, que assim eles se sentem mais alegres. Mais isso são memórias de um velho. Tome cuidado no caminho, sim.
– Obrigada.
Chegando em casa, como era de se esperar, a menina ganhou mais castigos. Só que desta vez o castigo foi o mais cruel de todos os que já lhe haviam imposto. Por causa da roupa suja ela já havia levado uns tapas, lavado os pratos por uma semana e limpado a casa. Agora, porém, fora castigada com uma combinação das mais malignas, lhe tiraram os livros e proibiram-na de sair de casa por uma semana.
Foram tempos difíceis, suas únicas alegrias eram a presença de Iolau, que parecia encher todo o quarto e diminuir um pouco sua solidão e melancolia e, para seu espanto, os momentos em que aquele sorriso fantástico do velho que acabara de conhecer lhe vinha à mente. Tiraram-lhe o mundo e, mesmo que muitas vezes ele lhe parecesse chato e vazio, ele lhe fazia falta. Queria se divertir como os outros de sua idade, mas não conseguia, mesmo quando não estava de castigo. Mas a maior crueldade desse castigo era que sem os livros ela sentia definhar as possibilidades de conhecer, mesmo que de longe, outros mundos. Mundos maravilhosos, especiais. Foi assim que, após dois dias presa e sem livros, a menina adoeceu. Então, não tiveram outra escolha, liberaram-na do castigo, mas mesmo assim ela não parecia muito animada. Diziam que cada dia que passava a menina se sentia mais longe do belo reino onde viviam as fadas e isso a machucava. Esses dias sem livros foram, portanto, uma tortura da qual não foi fácil se recuperar.
Um dia, porém, ela se lembrou da conversa com aquele velho e achou que seu bravo urso, que não descolara de sua cama durante sua enfermidade, merecia um passeio. Decidiu levá-lo ao bosque. Ela nunca fora àquele lugar e, no caminho, deliciava-se em imaginá-lo. Árvores fortes e gigantescas, mais velhas que seus avôs, verde por toda parte, com pequenas folhas amarelas e vermelhas espalhadas esparsamente no chão em contraste com os vários tons de verde das folhas, dos musgos, da grama. Tudo isso perpassado por vários rasgos dos raios do sol que como ouro que vence a escuridão e ilumina qual um conjunto de velas perpendiculares a morada dos seres da floresta. Foi então que, como ocorrera antes, deu-lhe um estalo e ela pensou que ali, mais do que qualquer outro lugar, deveria estar escondida a entrada para o belo reino das fadas.
Adentrando no bosque ela foi cada vez se surpreendendo mais e mais, tudo lá era como ela havia imaginado só que mais bonito. Não a espantava que o urso do velho adorasse aquele lugar, ela mesma achava que qualquer um que não gostasse de um local tão lindo estava louco. Ela se maravilhava com a sua beleza, com a sua simplicidade, sua naturalidade, os animais típicos da região desfilavam calmamente pelo bosque, sem alarme, coelhos, preás, esquilos, macacos, todos pareciam alegres, o som dos pássaros enchia aquele espaço. Adentrando mais e mais na mata ela encontrou muitas castanhas que ela adorava e que os esquilos pareciam não se importar em dividir com ela. Sendo assim guardou em sua mochila um pouco para comer mais tarde.
Como acontecera com a árvore, aos poucos o encantamento foi diminuindo e lhe batendo a tristeza, pois apesar de tudo ser lindo e ela e Iolau estarem se divertindo muito, ela não encontrara no bosque a entrada para o belo reino. Duplamente triste, por não ter encontrado a entrada e por ter que deixar aquele lugar maravilhoso, a menina rumou novamente para casa sem conseguir o que tanto desejava. Ela chorava silenciosa e desesperadamente e as suas lágrimas, gota a gota caiam sobre o urso. De repente, numa curva do caminho ela viu o velho que ao vê-la chorando foi ao seu encontro.
– Por que choras, filha?
¬– Não consigo encontrar a entrada. Eu queria muito encontrá-la.
– Entrada?
– Sim, para o belo reino, o mundo das fadas – disse a menina. Você sabe onde fica?
– Eu – disse o velho. Sente-se aqui. Vou te contar a história de uma menina que queria ser uma fada...

Por Fernando Cordeiro

O conselho dos cinco sábios

O conselho dos cinco sábios era muito tradicional e acontecia uma vez por ano, formalmente, pois informalmente eles sempre se encontravam. Alguns mais que outros.
O conselho era composto por três homens e duas mulheres. Uma das mulheres, embora fosse um tanto rígida, era muito sábia e bondosa, ao contrário da outra que, além de se achar a mais sábia de todos os sábios e não ser nem a sombra de qualquer um deles, era antipática, nojenta e grossa.
Os homens do conselho eram a encarnação da sabedoria no mundo. Quando havia qualquer problema, não importasse o tipo, os três estavam dispostos a ajudar, cada um do seu jeito, mas sempre bem, e não era incomum que um pedisse a ajuda do outro, eles eram sábios o suficiente para saber que não há vergonha nenhuma em pedir ajuda. Mas aconteceu de chegar um suposto sábio de terras distantes, o que a princípio não pareceu ser um problema. Ele também ajudava muito as pessoas e fazia o possível para se tornar amigo dos cinco sábios, o que no início não aconteceu.
O tempo foi passando e dois moradores da aldeia se tornaram muito amigos do novo sábio, embora sentissem que no fundo, para o novo sábio, não fosse possível ser amigo de alguém. Talvez depois, com o tempo, ele descobrisse que amizade é a coisa mais importante que se pode conquistar, não importando quão sábio se é, aliás, quanto mais sábio, mais provável que se conheça o valor de uma verdadeira amizade.
Com todos os acontecimentos da aldeia, o novo sábio acabou se aproximando dos cinco sábios e então aconteceu uma coisa muito interessante. A sábia mais velha, que conseguia perceber as coisas de longe, percebeu que esse novo sábio não era tão sábio assim, mas continuava tratando-o muito bem. A sábia mais nova, arrogante como era, não gostou de encontrar alguém como ela e pior, alguém que conseguia disfarçar muito mais que ela, passando-se por mais sábio.
Os dois amigos que o novo sábio havia feito na aldeia, haviam percebido há muito tempo o tipo de sabedoria que ele se dizia conhecedor: repetia coisas ditas pelos outros, sábios ou não, fingia conhecer coisas que qualquer pessoa que realmente as conhecesse saberia que ele nunca conheceu e o pior de tudo, era esperto o suficiente para enganar até os próprios sábios, pois devido ao fato de passar muito tempo estudando documentos de sábios muito distantes, tinha muita coisa para dizer, levando alguns dos sábios a crerem que toda aquela sabedoria tinha surgido da própria cabeça do novo sábio. Seus amigos, mesmo sabendo disso e tendo que agüentar todo tipo de desconsideração, continuavam sendo seus amigos, pois eles sabiam que aquele era o jeito dele e não havia o que fazer, embora tentassem. Outra coisa que fazia com que eles não se importassem tanto era o fato de saber que ele jamais conseguiria iludir os três grandes sábios.
Os sábios tinham um programa de aprendizagem na aldeia, e os alunos que se destacavam de alguma forma eram convidados para serem aprendizes dos grandes sábios. Os amigos do novo sábio eram aprendizes dos grandes sábios, um de cada, pois não era comum que um sábio tivesse mais que um aprendiz. E foi aí que coisas estranhas começaram a acontecer. O sábio que era mentor de um dos amigos aceitou também instruir o novo sábio. No início, os amigos ficaram apreensivos, pois o novo sábio podia enganá-lo, mas então pensaram que isso era absolutamente impossível e que com a convivência o grande sábio perceberia o engodo que era o novo sábio. Mas só Eru sabe que tipos de magias o novo sábio aprendeu em seus estudos, pois conseguiu enganar muito bem o grande sábio, a ponto de fazê-lo destratar seu primeiro aprendiz, dando preferência sempre ao novo sábio. Noa, o aprendiz desse grande sábio, ficou muito triste, pois amava demais seu mentor e não achava justo ele estar sendo enganado de forma tão vil e também não achava justo a forma como ele mesmo estava sendo tratado. Será que o grande sábio havia esquecido tudo o que tinham passado juntos?
Mea, o outro aprendiz, ficou com muito medo de isso acontecer com seu mentor, pois o novo sábio estava tentando e tentando, mas Mea estava alerta depois do que havia acontecido com o mentor de seu amigo e não permitia que o novo sábio se passasse por algo que ele não era na frente de seu mentor. Assim, com alguns empurrõezinhos de Mea, o seu mentor percebeu o que havia por trás da máscara do novo sábio e, embora nunca o destratasse, tratava-o da forma como deveria, ou seja, não como um sábio.
O terceiro dos grandes sábios, que era o mais adorado por Noa e Mea, também corria perigo, mas eles acreditavam que ele era forte suficiente para perceber e não se importaram muito em alertá-lo, principalmente porque não tinham muito contato com ele.
Um dia, os dois mentores precisaram se ausentar, deixando os três aprendizes nas mãos do terceiro sábio e então aconteceu o que Noa e Mea mais temiam: o novo sábio resolveu atacar. Mas dessa vez era muito pior, primeiro porque era o sábio que mais admiravam e o que tinham mais certeza que nunca se deixaria enganar, segundo porque estavam acompanhando o lento processo de corrupção que o novo sábio utilizava com suas vítimas e terceiro porque eles começaram a ser tratados de uma maneira muito diferente pelo terceiro sábio, como se os impostores ali fossem eles. Isso era absolutamente insuportável e Noa e Mea se sentiram os piores seres do mundo enquanto o novo sábio cantava vitória por toda a aldeia. O fato de ele haver conquistado a graça de dois dos grandes sábios fazia com que a maioria da população também pensasse que ele fosse um grande sábio. Como estavam enganados.
Noa e Mea não sabiam o que fazer, pois confiavam demais na sabedoria dos sábios e dois deles haviam sucumbido. Não sabiam o que pensar e começaram a achar que o problema era com eles, afinal, se o novo sábio conseguira enganá-los ou ele era realmente sábio, o que não era possível, pois eles o conheciam muito bem, ou os grandes sábios na verdade não passavam de uma ilusão. Mas isso também era inconcebível. E então perceberam que era exatamente isso: uma ilusão! Tudo era uma grande ilusão. O problema não estava com os grandes sábios ou com o novo sábio e sim nessa diferenciação idiota entre sábios e não sábios, cada ser é um ser e cada um com sua própria sabedoria. Só isso podia explicar o fato de algumas pessoas, sábias ou não, terem acreditado no novo sábio e outras não. A questão é que havia algumas pessoas que não se incomodavam em conviver com pessoas como o novo sábio e isso não fazia delas pessoas menos sábias. Era tudo questão de escolha e Noa e Mea escolheram deixar o tempo mostrar o que quer que fosse pra quem quer que quisesse ver.